Alcoolismo

O que leva alguém ao vício da bebida? Vou contar uma história que, acredito, responde a essa pergunta.
Vamos chamá-lo de João: nasceu numa família pobre. Estudou com dificuldade; nem sempre tinha roupa boa e quente para ir às aulas. Não tinha dinheiro para cuidar dos dentes e infelizmente perdeu os da frente não permitindo com isto que sorrisse. Os colegas zombavam dele, mas mesmo assim, continuava sorrindo, embora com a boca semifechada. Mais tarde pôde colocar uma prótese. Porém, em seu inconsciente ficou gravado o período em que era desdentado.

Aprendeu uma profissão que o fazia estar em contato com pessoas bem vestidas. Ainda neste período não tinha boas roupas nem carro para se deslocar até o local para efetuar seu trabalho. Usava uma velha bicicleta, e levava nas costas uma mochila com as ferramentas que precisava. Mas estava sempre sorrindo, fazendo seu serviço, assistindo a alegria dos outros. Na vida social acontecia o mesmo: nos finais de semana não tinha dinheiro para se divertir, namorar ou passear. Talvez inconscientemente, pensava que, se bebesse teria a mesma alegria das pessoas que encontrava, tanto no trabalho, quanto fora dele. Experimentando a bebida, sentiu que, por alguns momentos, tinha vergonha da sua situação social e poderia esquecer suas inseguranças e timidez quando estava junto com outros. Mas sentia-se diferente e obrigado a exercer suas funções, pois era sua profissão: registrar os fatos que aconteciam nos eventos e festas; muitas pessoas dependiam do seu serviço. Cada vez que sentia insegurança, buscava a torpes da bebida. Não tinha com quem falar sobre o assunto, porque poderiam achar idiotice de sua parte. Ele também não queria demonstrar seus medos e inseguranças. Cada vez mais foi ficando dependente daquela sensação, tendo o álcool como seu conforto e aliado. Só que o álcool é destrutivo e as conseqüências começaram a surgir.

João é um ótimo profissional, tem um coração generoso. Nunca reclama de nada. Se for preciso se prejudicar para não discutir, ele se cala. E o que acontece então? Vai buscar nos braços da bebida a dormência para não pôr para fora o que está sentindo. Não importa que hoje sua situação financeira seja ótima. Ele não tem os pés firmes no chão e não consegue acreditar que pode e merece ser feliz aproveitando tudo que tem. Torna-se uma pessoa sensível e muito carente.

Todos os que o rodeiam acham que João é um fraco e arrogante. Porque não voltar no tempo e procurar se colocar no lugar dele para tentar entender? Mais simples não é questionar, mas atirar pedras. Não é fácil conviver com dependentes de álcool. Fica-se sempre inseguro, esperando sua chegada em casa para saber s está sóbrio. A bebida dá a eles a segurança necessária para enfrentar seus medos, tornando-os incapazes de discernir se estão aptos a dirigir um automóvel, por exemplo. Não aceitam ser questionados e se negam a entregar a chave do carro para outro dirigir. A bebida deu-lhes a segurança, ninguém vai tirá-la. Sua vontade não coaduna com a realidade. Seus reflexos estão comprometidos, porém sua certeza de que agora está bem não vê o problema. Ele acredita que a bebida o ajudou a ser mais seguro. Confia nela, jamais admite que ela o está destruindo.

Usam-se sempre soluções paliativas e momentâneas, mas acredito que estas pessoas deveriam fazer um tratamento de desintoxicação, reequilíbrio do organismo e uma terapia profunda, juntamente com os familiares. Conheço vários Joãos e as histórias são parecidas. Não quero ser radical dizendo que o problema é só este, mas este é um deles. Se não forem tomadas estas medidas, o organismo já estará fragilizado, com órgãos destruídos, e o sentimento de culpa dessas pessoas vai tornar o problema irreversível com finais tristes.
Se alguém de vocês que está neste momento lendo este livro, tiver algum familiar com este problema, vá a fundo em busca de uma cura da mesma forma que iriam se esta pessoa tivesse um câncer.
Se o câncer tem cura, porque o alcoolismo não?

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